Aqui você poderá encontrar muito de mim e espero com isso revelar o que ainda não sabe sobre você. Calma, aqui não será um espaço esotérico. Mas, acredito que no contato com o outro/a descobrimos quem verdadeiramente somos. Sinta-se a vontade em viajar comigo nesses escritos e saiba que o conhecimento é um processo, é uma construção, em que todos/as nós fazemos parte das diversas etapas de sua edificação. Participe desta aventura, venha pescar comigo nesse grande mar que é a vida, onde costuraremos histórias e reflexões acerca dos nossos sentimentos, pensamentos e das coisas da vida, as coisas do dia-a-dia que nos rodeiam.

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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Na simplicidade está o segredo da felicidade


Aquela manhã o dia pareceu-lhe incomum, como se fosse possível isso acontecer, como se houvesse dias comuns. A noite o abraçou como se soubesse de algo que ele ainda estava por descobrir. O sol pareceu-lhe o mais belo de todas as suas lembranças. O vento e a brisa oscilavam entre o frescor, o frio e o calor. Sentia um perfume que pairava pelo ar que não sabia de onde vinha e o fez viajar no tempo. Reviveu muitas de suas memórias adormecidas, perfumadas por um conjunto de aromas suaves. Entre risos, sentiu sua face molhar com uma água salgada que brotava da janela de sua alma e vinha de seu mar interior.

Parecia que tudo resolveu lhe visitar naquela manhã. As árvores pintavam um verde que lhe lembrou dos olhos de alguém, que aquele momento não fez diferença, a beleza daquele verde bastava em si. Nunca tinha visto flores tão coloridas como percebera naquela manhã ao passar por elas. E ali descobriu a origem de tão variados perfumes que o fez chorar sorrindo. Questionou se aquelas flores com aquele perfume tão intenso sempre estiveram por ali, por seu caminho. Ou o que o levara a notar aqueles perfumes tão intensos e aquelas cores vibrantes das flores, que pareciam borboletas repousando de suas tarefas diárias de colorir o vento. Aproximou-se e espantou-se quando viu aquele belo panapaná, multicor, que sua presença fez sair voando do meio daquelas flores e pintaram o vento. Sentiu-se extasiado com visão tão bela e simulou ser um pintor a pintar o ar e riu. Riu de si mesmo, de sua ação delirante e insana.

Ação insana para quem passava por ele e o via a agir sem se preocupar com a censura dos olhares, escravos da padronização da sociedade. E ele, pela primeira vez, sentiu uma sensação de liberdade, mesmo sem pensar sobre o sentido dela, bastava o que seu corpo dizia sentir. Sua manifestação livre e desprendida dos padrões sociais deixava quem passava por ele deslocado a questionar o que viam. Mas, com medo do que encontrariam como resposta, preferiam chamá-lo de louco. Assim são chamados quem decide seguir as vontades do corpo e esquecer as construções racionais (regras) que nos limitam, nos escravizam ao nos impor como devemos agir. O corpo não mente, a mente pode até tentar, mas o corpo denuncia. Hoje, estamos tão acostumados aos padrões sociais que não conseguimos perceber as reações de nosso corpo quando algo nos tira a liberdade. Se soubéssemos ouvir o que o corpo nos diz, conseguiríamos perceber quando não estamos sendo verdadeiramente livres.

Aquelas pessoas não percebiam, mas seus corpos queriam juntar-se àquele corpo que simulava um pintor e que ao pintar o ar parecia mais uma coreografia, parecia dançar ao som de uma canção que só ele ouvia. Existem canções que só os corpos percebem, mas só alguns, livres e sem amarras, e só esses deixam se envolver por elas e assim entram na dança. Eis uma expressão de liberdade, dançar ao som que não se ouve. Os corpos são essencialmente livres, mas a racionalidade humana os fizeram escravos. O corpo dele, naquela manhã, quebrou os grilhões que o prendia e iniciando com o movimento coreografado de quem pintava o ar, começou a dançar.  Dançou ao som da melodia mais bela, dançou ao som da liberdade, acompanhado por aquelas flores voadoras, aquele panapaná com suas cores vibrantes e que deixavam o seu balé mais envolvente. Algo que ele não sabia explicar o envolvia e o deixara leve, a agir como se estivesse sendo levado pelo vento, a sentir-se vento.

Seu sorriso estava contagiante, quem o via desejava estar ali, junto a ele, experimentando sua felicidade insana que contagiava quem dele se aproximava, simulou um ciranda que fez alguns dos passantes juntar-se a ele e enquanto dançavam, a chuva o veio visitar como que para abençoar sua capacidade de levar o riso à vida de quem há muito não sorria. A chuva veio lavar o preconceito de quem ainda relutava entender que a liberdade não é loucura e abençoou quem se juntara àquela dança de alegria, àquela ciranda do respeito à diferença e do riso presente. Ela veio se fazer presente nesta cerimônia que ele ainda não sabia do que se tratava. E já findava o dia quando ela foi embora, veio se fazer presente  e dizer-lhe que estava junto em seu breve propósito de anunciar que o fruto da liberdade é a felicidade. “Breve propósito”! Repetiu ele ainda sem entender tudo que estava acontecendo.

Ainda dançavam quando surgiu no céu um lindo arco-íris, que com suas cores vibrantes dizia que não podia deixar de comparecer em uma despedida tão linda. Despedida? Todos se entreolharam sem entender o que aquele sinal queria dizer. “Despedida!” Repetiu ele que começava a entender tudo que acontecera em seu dia e por ter tido um dia tão magnífico. Todos ainda sentiam uma força superior que os envolviam no mesmo sentimento de amor. Então o arco-íris partiu, deixando em evidência um céu límpido e de um tom de lilás jamais visto, que lentamente foi escurecendo, e sol, lá no horizonte, enviava uma luz hipnotizante e parecia não querer ir, mas não podia ficar e, de longe, ninguém viu, mas o sol chorou por ter que partir e deixá-lo ali. A noite voltou com todo seu mistério e desta vez mais misteriosa do que nunca, mas ele já percebera o que aquele dia o reservara, sentia no profundo de sua alma o motivo de aquele dia ter sido tão diferente. Então ele, olhando cada mulher, cada homem, cada criança e cada ser que esteve com ele naquela dança, disse: “chegou a hora, já sinto a presença dela, sinto que, hoje, ela se aproxima de mim”.

Na verdade, todos os dias de sua vida tinham sido assim, ele só nunca o percebera, pois para ele sorrir e fazer o bem nunca foi  algo extraordinário, sempre fora uma prática cotidiana. E naquele dia, o cosmo apenas o fizera perceber o valor de sua vida de simplicidade, de amor e cuidado com os seres da terra. A lua começou a ocupar seu lugar na órbita terrestre e as primeiras estrelas começaram a iluminar o céu e ele a se maravilhar com o que via e disse: “cada ser tem sua estrela que brilha através dos sorrisos que damos ao outro sem que para isso precisemos perdê-lo, pois o riso não se subtrai quando o damos, o riso se multiplica e torna a vida mais bela”. Como gesto de agradecimento por ter uma presença tão sublime ali, todos o abraçaram, num abraço que transmitia bem querer, aconchego e paz. E, em meio aquele abraço, olhou o céu e rio para a lua que lhe sorria, e agradeceu os milhões de risos das estrelas que também vieram fazer presença no dia do seu encontro mais esperado.

Em meio aquele gesto de amor de cada pessoa que entrou na ciranda, em que a lua e as estrelas vieram iluminar seu encontro tão esperado, seus olhos transmitiam uma esperança penetrante, esperança na humanidade, esperança que a realização de um mundo melhor é possível.  Olhando cada rosto que estava ali a lhe abraçar, pronunciou as seguintes palavras: “Amada morte, será hoje nosso encontro mais profundo? Ou queres apenas um beijo meu?” Questionou já sabendo a resposta, e acrescentou: “Diante de ti, resta-me apenas, entregar-me”. E expressou o sorriso mais belo que um ser humano fora capaz de expressar, por saber que aquele encontro era sinal que sua missão tinha chegado ao fim, e sorrindo fechou os olhos e adormeceu, nos braços daquela ciranda de amor.

E todos que ali estavam não choraram, foram preenchidos por uma alegria nunca sentida. Todos se admiraram quando a luz do luar e das estrelas concentrou-se sobre o corpo dele que era aconchegado naquele abraço coletivo. E como mágica seu corpo converteu-se em pura luz e espalhou-se no ar, e todos se viram abraçados como se estivessem assinando uma aliança de amor.  E então souberam que aquela presença era o amor que se fez humano para nos ensinar que na valorização das coisas simples, do cuidado com o próximo e com a natureza está o segredo da felicidade. E a maré que passou o dia inteiro agitada acamou-se e recolheu suas ondas deixando que aqueles raios de luz iluminassem suas águas.


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O protagonista

A história era a de sempre. A beleza dela, os galanteios dele e todos os outros coadjuvantes, que sempre estiveram ali, mas nunca interferiram em seu ato. Ao pisar no palco percebeu uma sensação diferente do habitual. O cenário não parecia o mesmo, talvez fosse a luz ou as cortinas que estivessem lavadas, pois até o cheiro estava diferente. O olhar e sorriso dela continuavam lindos, como todas as vezes que contracenaram e repetida vezes o encantava. Olhou a sua volta e quem estava no palco com ele. Seu corpo gelou, a vista escureceu, sentiu uma intensa disritmia e uma sensação de dor que o comprimiu o peito. Viu que sua presença ali, naquele palco, não fazia mais sentido, seu papel já era obsoleto. Outro ocupava com maestria o papel que outrora fora seu. Fazê-la rir. Seu tempo passou e ele não percebera, a não ser naquele instante em que viu outro Protagonista em seu lugar. Então resolveu sair da cena que não lhe cabia mais. Desistiu? Não, apenas retirou-se, deixou que o sábio tempo reescrevesse o final de sua história e resolveu pôr-se a escrever um novo roteiro para sua vida. Esperança? Sim, ele tinha. Sempre a cultivou em seu coração, afinal, isso o manteve vivo. E o amor? Quem passa por ele, hoje, e o vê, percebe, em seus olhos, o profundo amor que tem. E todos sabem quem é dono da história.

sábado, 21 de maio de 2011

Um presente noturno


O sol já se punha e o céu já estava escuro
Tudo estava calmo, só o meu coração gritava
Gritava com toda sua força para irromper aquele silêncio
E, foi naquele silêncio que a noite me disse:
Bom dia, cheguei para te fazer companhia
Não gosto de te ver tão só, esse teu jeito me dá dó
Trago a lua e o luar para iluminar teus sonhos, teus planos
Não feche os olhos que o sol ainda vai demorar
Deixe-os bem abertos para ver
Para ver o presente que eu trouxe para você
Olhe as estrelas que insistem em aparecer
Que insistem em aparecer só para te ver
Elas brilham por você, um brilho belo, um brilho cálido
Que te aquece do frio que insiste em se instalar em teu coração
As estrelas me iluminam só para verem o teu sorriso
Sinta o meu cheiro que é o cheiro do teu amor
Um cheiro que te alivia a dor da ausência que preenche tudo
Eu te presenteio com a noite mais bela
Com aquilo que dizem ser milagre, ser miragem
O teu presente não é miragem
O teu presente é mais que milagre
Eu te presenteio com minha presença mais rara
Eu te dou uma noite com sol
E realizo o teu sonho mais intenso
De viver com a tua amada
Com tua rosa bela e rara
Com tua rosa negra.

domingo, 12 de setembro de 2010

Uma visita inesperada


A noite estava fria e o vento fazia o corpo estremecer. O jovem escritor sentado ali, sem um agasalho, no meio fio daquela rua morta, de vida, apenas algumas árvores que resistentemente sobreviveram o avanço do progresso que tiraria o país da miséria, e o vento as fazia movimentar. Um cachorro, em busca de companhia deita-se ao seu lado esperando um afago e ele é quem se sente afagado por aquela nobre companhia naquela noite fria e sem vida.

Cabisbaixo, fitando o novo amigo perdeu-se em seus pensamentos, nas lembranças dos momentos que sempre desejou que acontecesse. Imaginou-se brincando com seu novo amigo, e as risadas contagiantes, fruto dos momentos felizes que um proporcionara ao outro. Sem perceber se pegou ensaiando um sorriso ao imaginar os momentos com o seu novo amigo. Enquanto viajava em sua imaginação ouviu uma voz suave, levantou sua cabeça e viu uma bela jovem em sua frente. Estranhou. “De onde teria surgido tão bela jovem?” Indagou-se em seu pensamento.

Estaria ainda imaginado? Seria aquele ser fruto de sua imaginação? Ainda submerso em seus pensamentos, das lembranças do que não aconteceu e dos risos permitidos na companhia de seu novo amigo resolveu entregar-se ao que via em sua frente. Como que compreendendo o desejo do jovem escritor de sair daquele estado melancólico a bela jovem lhe diz:

- Vamos passear?

- Onde? Ele questiona.

- Onde você quiser, um lugar bonito, sem barulho, calmo e tranqüilo. Ela responde e acrescenta:

- Bom! Hoje, qualquer lugar estaria bom, qualquer lugar será melhor que este túmulo que você está.

- Que tal uma praça? Ele sugere.

- Pode ser, acompanhado da lua e das estrelas. Diz a bela jovem com um ar de riso de quem esconde algo a mais e complementa:

- Quem sabe você possa me explicar as coisas da vida.

Ela estendeu a mão e o ajudou a levantar-se. Ele passou a mão sobre seu amigo e o fez levantar também. E juntos caminharam rumo à praça que seria palco das explicações das coisas da vida que a jovem ansiava por escutar, calar e aprender. Enquanto caminhavam, ele explicava o que pensava da vida, seus significados, valores e sentidos. Explicava cada coisa como quem contasse uma história. A bela jovem parecia saborear cada frase dita como quem necessitasse alimentar-se do que o jovem escritor dizia para livrar-se de algo que nem ela sabia ao certo o que seria. Ele contando e ela escutando cada palavra, mergulhados naquele mar de histórias nem perceberam que eles já estavam caminhando pela Praça das Bandeiras. Então ela diz:

- Esperar o desfecho de suas explicações me deixa ansiosa, você têm uma paciência...

- Vou te dar mais uma ansiedade. Ele diz.

- Ahhhh, não acredito! O que é? Tem mais alguma coisa? Ela exclama perguntando. O jovem escritor então disse:

- Desde que você veio até mim, você trouxe uma pergunta que ainda não me fez e que se intensificou à medida que ouvia as minhas histórias, mas eu a vou responder com mais histórias.

A bela jovem olhou-o assustada com os olhos quase saltando da face. E esperou o que ele teria a lhe contar. Ele teria mesmo sentido o que ela trazia em seu coração? Só lhe restava esperar e ficou mais atenta do que em todo o caminho até a praça.

O jovem escritor começou a lhe contar a história das rosas negras, da importância delas no mundo e na vida das pessoas, falou-lhe que as rosas negras são raras e devem ser cuidadas e que quando encontradas elas tornam nossa vida mais bela e mais preciosa, pois elas são raras e tornam nossa vida com elas rara também.

Ela com um ar de surpresa e uma mistura de sorriso e emoção disse: - Espero que seu jardim esteja repleto dessas raridades, as rosas negras são muito significativas na sua vida. Ouvi-lo me causou um gelo na barriga. Espero ter tempo para viver esse tipo de relação. Como que a testando ele perguntou:

- Mas, quando é que encontramos essas rosas negras? Ela respondeu:

- Quando estabelecemos uma relação sincera. Quando sem mesmo escutarmos, só olharmos, percebermos o que a pessoa pensa e sente. Quando essa pessoa é um ser único e especial em nossa vida capaz de despertar os melhor de nós e nos levar a fazer coisas que nunca tínhamos feito. Ele ponderou:

- Devemos cuidar para não deixar que essas raridades passem por nós sem termos apreciado sua beleza única. Antes que ele concluísse ela interou:

- Possíveis de passar despercebidas? Mas, quando se encontra é impossível deixar de saber quem é uma raridade em nossa vida. Por isso eu valorizo cada ser em minha vida, mesmo aqueles que passam por pouco tempo. Ele sorriu ao perceber que ela trazia em si a resposta que tanto ansiava e com o intuito de despertar mais o que ela trazia no coração disse:

- O encontro com um ser raro é mágico, acontece no momento em que se canta a pausa da canção do encontro das almas puras. E ela exclamou:

- Claro! Vai além dos sentidos. É coisa que só vemos com o coração. É uma experiência única, inexplicável através de palavras. Ele diz mais:

- Por isso é tão difícil narrar. É preciso ler o coração, é preciso tirar dele a compreensão. E ela diz:

- Nada melhor do que a experiência par ajudar. Ele sorriu. E ela continuou:

- Você traduz bem os sentimentos e fala deles com muito jeito. Mais um sorriso ele emitiu, como quem não soubesse o que dizer, e antes que ele arriscasse pronunciar qualquer palavra e tentando justificar a solidão em que encontrou o jovem escritor ela continuou:

_ Talvez seja por isso que seu coração não é de uma pessoa só. Seria egoísmo se assim fosse. Nada melhor que a convivência par nos ensinar, mesmo que seja assim, num encontro inesperado, numa noite fria e solitária, na Praça das Bandeiras.

Suas histórias, quem as escuta fica pensando do que de fato se trata, o que quer dizer...

O jovem escritor mais uma vez sorriu e perguntou:

- Você poderia me explicar melhor o que acabou de dizer?

- Quando te ouvimos, ficamos inquietas para saber mais sobre tudo o que diz, acompanhar seu raciocínio. E ele disse:

- É? Mas, de fato, sempre quer dizer mais e sempre se têm mais a dizer. Elas traduzem apenas um fragmento de coisas muito mais complexas. E a bela jovem acrescenta:

- É bem isso, seu sinônimo é complexidade, não sabe ser simples nas palavras mesmo sendo tão simples no seu agir. E, agradeço o privilégio da partilha de diálogo nesta madrugada fria, de insônia e solidão, na sua companhia e de seu companheiro cão. Ele abaixou-se para afagar o cachorro, que os acompanhou durante todo aquele diálogo, e sentiu-se feliz pelo acontecido e quando levantou o olhar para agradecer, também, à bela jovem pela companhia, só viu o rastro do luar, o sol despontando no horizonte e o canto de um galo anunciando um novo dia. Então pensou: teria sido a lua a sua companhia naquela madrugada fria? Sem compreender muito bem o que tinha acontecido, mais uma vez, apenas sorriu.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Agosto a gosto de quem?

O dia foi tão corrido que ele não percebera que agosto passou. Já estava na primeira madrugada de setembro. Relembrou o dia anterior, o último dia de agosto, cheio de coisas a fazer e as fez. Viveu todo aquele mês na espera daquele último dia de agosto que chegou e ele nem percebera que tinha passado, não viveu o mês inteiro como gostaria de viver, mas gostou do que viveu, sobretudo, aquele último dia de agosto.

A noite que antecedeu aquele dia, o último de agosto, já anunciava que o dia seguinte, a seu gosto ou a seu contra gosto, passou e restava apenas viver o seu último dia. E aquele fim de agosto teria um gosto diferente, um gosto especial.

Ainda restavam alguns ajustes a fazer antes que o galo anunciasse um novo dia. Sentado em frente ao seu computador, o jovem escritor, nada conseguia fazer, seus pensamentos estavam presos no dia que ainda estava por vir. Embriagago por seus pensamentos que o levavam para além dali, de seu quarto, tantas vezes frio com sua cama vazia, virou-se com um ar de satisfação e um suave sorriso, olhou para a sua cama que já não estava vazia como de costume e viu aquele corpo que cansado repousava ali e chamava por sua companhia.

O mar de palavras de seus mergulhos diários ganhava outros significados, com novas denotações e conotações, tão únicas que o seu maior esforço seria inútil para tentar verbalizar tudo o que aquele momento preenchia em seu interior. Um anjo resolveu lhe visitar e lembrar-lhe a beleza que há em ser divino na humanidade. O vazio que outrora tanto lhe incomodara já não tinha poder sobre ele. Sua divindade era o que mais humano possuía e foi preciso a presença daquele anjo para recorda-lhe do sentido da vida.

O eco do seu grito interior trouxe até ele aquela presença que o fazia sorrir. Deixou seus ajustes de lado. Nada mais importava. Somente a contemplação de sua amada que se encontrava ao alcance de seus abraços, beijos e carinhos, merecia sua atenção. E, ao ouvido daquele ser angelical que repousava em sua cama, sussurrou: impossível não te amar, és tão radiante que o arco-íris nasce em ti e por isso tua presença colore o mundo.

Sem a ansiedade da espera pela chegada do último dia de agosto, deitou-se, abraçou sua amada e continuou suas juras de amor e adormeceu sentindo a brisa que invadia seu quarto e fazia aquela junção de corpos ganhar mais sentido. Foi assim, que aquele mês de agosto e, sobretudo, seu último dia, não ficou ao gosto do jovem escritor, mas ficou a gosto do amor, que sempre foi sua maior reverência, a causa de seus escritos e seus melhores refluxos mentais.

domingo, 16 de maio de 2010

História de pescador?

A leve brisa que sopra a fresta do quarto da casa de madeira anuncia que está na hora de levantar-se. Ele olha ao seu lado e vê a silhueta de sua esposa dormindo um sono invejável e delicadamente movimenta-se para não acordá-la, não queria importuná-la, não aquela madrugada com tem sido a rotina de seus 35 anos de casados, deseja que pelo menos naquela madrugada sua esposa tivesse uma completa noite de sono. Usou de toda sua calma, paciência e silêncio tão precioso e necessário em seu ofício para dosar seus movimentos ao sair da cama. Após minuciosos e cuidadosos movimentos consegue levantar-se sem interromper aquele belo e calmo sono que fazia sua esposa sorrir enquanto dormia. Caminha pela casa tendo apenas seus pensamentos e o vento que assobiava pelas frestas da casa, pensava em seu ofício diário, sua cama, sua esposa e seu sorriso adormecida, o tempo que perdia longe dela ao tentar garantir seu sustento de sua vida e se indagava, estaria garantindo sua vida ou perdendo-a? Pensou em todas as vezes em que mesmo querendo ficar ali e aproveitar o aconchego da cama, o calor daquele corpo que o fazia companhia e tornara sua vida tão feliz, teve que levantar e seguir para seu ofício.

Mas, aquele era a sua rotina, todo dia a mesma coisa, antes do sol despontar, e antes da lua beijar o mar, ele levanta-se e seguia para sua lida. Todo dia contemplava aquele rosto, aquele sorriso, aquele corpo que sentia-se obrigado a deixar ali, mesmo querendo ficar, para cumprir sua rotina. Que árdua rotina, deixar o aconchego daquele riso, aquele abraço que fica mais gostoso na madrugada e que nos chama a ficar sempre ali, aproveitando até o último momento.

Pela casa o vazio daquela vida que no quarto dormia, em cada canto a lembrança fria de cada momento vivido, as brigas e beijos, os choros e os risos, o gol e o último capítulo da novela, a mesa pronta servida com sua comida favorita, as danças ao som da rádio da cidade, o enterro do cachorro, o banho frio para superar o calor dos dias quentes, ouve ao longe o som das lembranças: amor o chuveiro queimou! Vem logo pra cama! O jantar estar pronto! Vamos ao cinema? Tem um circo na cidade! Chegou visita! Vou preparar o café!

Café? O café, perdido em seus pensamentos e em todas as lembranças que o resolveram visitar naquela madrugada, esqueceu do café, afinal e era ela que sempre com ele levanta-se e ia lhe preparar o café que o servia o dia inteiro em sua lida. O café que o fazia sentir-se sempre ali, ao lado dela, venerando o seu amor. Distante, sentia-se em casa e aquilo lhe confortava, era sua força para superar a distância que diariamente o acompanhava.

Caminhou em silêncio até a cozinha, pegou a panela, mediu a água e pós no fogo, em alguns minutos estaria pronto, não seria como o dela, mas era preciso ser assim, pelo menos naquela madrugada queria que sua esposa dormisse seu sono merecido. Enquanto esperava o aquecimento da água, preparou a mesa, tudo em seu devido lugar, faltava o pão, o pão! Estava na hora do padeiro passar, para garantir o sono de sua amada, abriu a porta da cozinha que dava para o quintal, deu a volta na casa e cuidadosamente abriu o portão, ao longe avistou uma bicicleta com um cesto em sua garupa. Era o padeiro, acenou e esperou, fez sinal para o padeiro mantivesse o silêncio. Dois pães, por favor! Com os pães em mãos agradeceu, despediu-se e entrou. Pôs os pães sobre a mesa.

A água no fogo fervia, pegou o saco de pano, colocou sobre o bule, colocou os grãos no moedor que renderem uma porção de aproximadamente duas colheres de sopa cheia de pó de café, açúcar suficiente para deixar o café levemente amargo e despejou a água. A água quente, ao encontrar aquele pó, penetrou-o e o fez exalar seu cheiro pelo ar, o cheiro inundou a casa, passando pelo corredor chegando até o quarto.

Sua esposa que no quarto gozava de um belo e calmo sono que a fazia sorrir enquanto dormia, sentiu aquele cheiro, abriu levemente os olhos e ameaçou levantar, precisava tanto daquele sono que não percebeu que estava só na cama, pensou que fosse um sonho, fechou os olhos e voltou a dormir, mas agora seu sonho tinha um cheiro de café da manhã, então sonhou, sonhou que naquele dia seu marido resolveu lhe fazer uma surpresa, primeiro, tinha decido não ir trabalhar, mas levantou como sempre no mesmo horário e sem que ela percebesse, saiu da cama, preparou o café, colocou a mesa, ornou com o vaso de tulipas que ela com tanto zelo cuidava, e voltou para cama para curtir sua companhia até que o sol anunciasse um novo dia. E, assim que os raios de sol invadiram todas as frestas da casa de madeira, das telhas expostas sem o forro, ela a abraçava como no seu primeiro encontro, e beijando-a dizia: amorzinho, está na hora de levantar, o café está pronto, só falta você e seu sorriso para completar a beleza deste dia.

Enquanto ela sonhava, ele verificava se tudo estava ali, seus materiais, a mesa pronta e a garrafa térmica de café, que naquele dia teria outro sabor, um sabor de cuidado, de recompensa, cuidado diária que sua esposa tinha ao levantar-se junto com ele para ajudá-lo a preparar os seus dias de ofício, mas, naquele, após 35 anos de cumplicidade, foi sua vez de cuidar e ajudar sua esposa a preparar seu dia, mesmo que foi com um pequeno gesto simples de preparar o seu café e deixá-la gozar de uma noite inteira de sono. Ouviu o canto dos maçariquinhos, foi até a janela da cozinha, da qual é possível ver o rio, e viu que o rio já havia baixado, anunciando a vazante da maré, era preciso ir, estava na hora. Mas, antes era preciso fazer uma coisa.

Foi até o quarto, olhou para sua esposa que ainda estava sonhando com a bela surpresa que tinha recebido, lamentando ter que deixá-la ali, aproximou-se, sentou-se na beirada da cama, mexeu nos cabelos de sua amada e que cobria o seu rosto e escondia aquele sorriso resultante do belo sonho em que ela se encontrava. A aproximação dele misturou-se ao sonho dela. Ela sentia o beijo que ele lhe dera como despedida ou até logo, em função de se encontrar em saída para sua rotina de trabalho. Após beijá-la, ele diz baixinho para não acordá-la: “Amorzinho, está na hora de eu ir, deixo seu café pronto, só vai faltar você e seu sorriso para completar a beleza deste dia quando eu estiver no mar”. Puxou a manta e a cobriu a fim deixá-la mais confortável e impedir que a brisa que invadia o quarto pelas frestas da parede de madeira a incomodasse. Levantou-se, mais uma vez com todo cuidado possível, foi até a porta, virou-se para trás e olhou mais uma vez sua esposa que ainda dormia e sorria. Ela como que sentido o vazio no qual o quarto ameaçava entrar, e em atenção as palavras que seu marido em sonho lhe dizia para levantar, abriu levemente os olhos e achou que o viu saindo. Ela pressiona as mãos fechadas sobre os olhos para melhor ver e se percebe só e o café.

O café? Percebeu que havia passado da hora, aquele sonho pareceu tão real, não entendo o que havia acontecido resolveu levantar-se e verificar o que estava acontecendo, foi então até a porta do quarto de onde era possível ver o acesso a cozinha e a saída para o quintal, avistou ele que pegava sua tarrafa, colocou-a no paneiro, onde estava a garrafa de café, junto com os outros materiais necessário para mais um longo dia de pesca, colocou o paneiro no cabo do remo, saiu pela porta da cozinha e caminhou em direção a sua canoa que o esperava quase em seco, pois o rio havia baixado depressa demais. Ela, enrolada na manta, corre até a porta da cozinha e grita suave ao seu amado com um riso triste em sua face: “amor! Não demora! Volta logo!”. Ele olha para trás e vê aquela linda mulher enrolada em uma manta que há alguns minutos tinha deixado na cama, pensou em tudo que passou por sua cabeça desde que levantou-se da cama.

Deixou seus materiais caírem no chão e foi ao encontro dela com aquele sorriso triste ao se despedir e que lhe pedia que ficasse, antes que ela se desse conta, ele a abraça, como se aquele fosse seu último abraço. Ela abre a boca para dizer-lhe algo e ele a impede com um demorado beijo, um beijo como eles nunca haviam experimentado, era uma mistura de amor, cumplicidade, desejo e realização. Ela tenta dizer alguma coisa e ele mais uma vez a impede de pronunciar qualquer coisa que seja além dos gemidos provenientes da satisfação daquele beijo que lhe tirava o fôlego. Após, uma luta que não queria travar contra aquele beijo ela consegue chamar atenção de seu amado e, sem parar o beijo, ela aponta em direção ao rio, que àquela altura, já estava seco e junto o casco, e diz ao seu marido: “Amor, você vai ter um trabalhão para empurrar o casco até alcançar a água”. Ele, sorrindo lhe diz, “Não terei não”. Ela: “Como não?”. Ele a abraça aconchegantemente por trás e lhe diz em seu ouvido como em uma jura de amor: “Ficarei aqui, juntinho de você, meu amor”.

quinta-feira, 18 de março de 2010

É meu!


Estava eu sentado na beira de uma calçada
Olhando o nada, se é que no nada exista algo a olhar
Mas, entre o nada olhar e o tudo que não se vê
Continuei a olhar
Alguém, que para mim, sem importância
Parou, e a cena em que me enquadrava, estranhou
Talvez se indagando o que eu estava a olhar
Se ele soubesse,
A cena, a mesma, eu a olhar e ele a me olhar
Ele sem importância para mim
E eu já não era sem importância para ele
Ele, então, sentou-se ao meu lado
Juntos olhávamos
Os carros passavam e as pessoas nos observavam estranhamente
Carros de todos os modelos e marcas e...
De repente surge um Fusca vermelho
E num relâmpago de consciência, um grito
É meeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeu! Porra!
E uma gargalhada soou mais alto
Então gritei euforicamente: Perdeu otário...
Não consegui parar de rir
E ele disse: não vale, eu estava distraído
Então, ele que não tinha importância para mim teve sentido.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O Sal da lágrima

Dentro de cada pessoa, bem lá nas profundezas da alma existe um mar,
Esse mar é resultado dos rios da vida, de cada experiência que passamos
As experiências são memórias, lembranças
Enquanto navegam através dos córregos da alma
Essas memórias são como o aqui e agora
A cada descuido e elas brotam
Alguns chamarão esse brotar de lembranças que ocorre em nós de [nostalgia, outros dirão que é saudade
À medida que essas memórias vão se aproximando do mar
Elas vão escapando de nossa capacidade de trazê-las à tona
Alguns recorrerão a relicários,
À elementos palpáveis que possam trazer de volta aquele momento
Há quem tenha até baú de recordações, essas pessoas tem medo de [afogar-se nesse mar
Por isso, tentam guardar tudo fora de si
Mas, memórias, lembranças são vivas, é vida.
Não podemos segurá-la, não existirá relicário ou baú que as [conseguirão comportá-las
Chegará o dia em que essas memórias não serão tão presentes
Será quando elas se juntarem às milhões de memórias que formam o [nosso grande mar interior
O mar das memórias, um profundo mar de lembranças
Elas nunca se perdem, elas nunca desaparecem
Elas ficam lá mergulhadas naquele mar
E como são vivas, vez ou outra elas resolvem aparecer
Sem que menos esperemos, elas aparecem
E nos tiram o chão, nos fazem viajar, viajar no tempo
Sem que para isso necessitemos de grandes recursos tecnológicos
E nesse momento, sem que percebamos, as janelas dá alma se abrem
E derramam fragmentos de lembranças, de memórias
Uma gota de uma água salgada, uma gota de nosso profundo mar [interior
O nosso mar de memórias, de lembranças
É, a lágrima vem desse profundo mar, por isso ela é salgada.

sábado, 26 de setembro de 2009

As amizades são como as primaveras

Olhou o relógio e faltavam quinze minutos para as sete da noite, os diálogos do MSN o distraiu tanto que ele esquecera da conta que devia pagar, despediu-se rapidamente de quem pode e desligou seu computador, talvez, se corresse ainda encontrasse a casa lotérica aberta. Correu o máximo que conseguiu, parece que todos na cidade esqueceram-se de pagar suas contas no horário comercial, a fila estava gigantesca. Mas, isso é Brasil! Teria como ser diferente?

Enquanto isso, ela descabelava-se sobre sua produção acadêmica, com esforço conseguiria terminar seu trabalho, mesmo que para isso levasse a noite inteira acordada, terminar aquele trabalho era uma questão de honra. O cansaço mental já dominava seu corpo e sua vontade era de jogar tudo pelos ares, resolveu tomar um banho, um banho quente a traria de volta daquele cansaço que a fazia desesperar-se.

Ele, com o intuito de enganar sua espera começou a contar quantas pessoas estavam antes de sua vez, avistou uma figura que estava quase para ser atendida que lhe pareceu familiar, observou bem e reconheceu, um velho amigo que há muito não falava. O observou ser atendido e o acompanhou com o olhar, parece que sentimos quando somos observados, e o seu amigo sentiu algo diferente, algo que pareceu lhe incomodar a ponto de fazer uma espécie rastreamento e os olhares se encontraram, um sorriso de cumplicidade surgiu, então se cumprimentaram como bons e velhos amigos fazem: “fala seu filho da puta”, “quanto tempo, porra”, “saudades de ti”. Trocaram lembranças e um e pergunta surgiu. Vais fazer o que? Só vim pagar uma conta, estou de bobeira. Espera-me então, só vou pagar essa conta aqui.

Uma boa companhia faz até o Domingão do Faustão suportável, enquanto esperavam sua vez, lembraram das promessas não cumpridas e surge o inevitável, o convite para continuar aquela agradável conversa no velho lugar de confidencias, o Café Bahia, lá poderiam aprimorar seu diálogo recheando-o com uma deliciosa porção de moela e a geladíssima Serra Malte, pagaram a conta e seguiram ao lugar que tantas vezes testemunhou suas confidencias.

Chegaram ao seu confessionário particular e não precisaram nada dizer, logo chega o garçom trazendo o de sempre e dizendo, estão sumidos. É amigo, a correria do dia-a-dia distancia até os amigos mais próximos, responderam ao garçom como que em coro de lamentação de estarem a tanto tempo sem suas confidencias.

No quarto, ela preparava-se para o banho, espreguiçou-se, retirou cada peça de roupa como quem prepara-se para um ritual sagrado, abriu o guarda roupa, retirou uma toalha e enrolou-se, preferia andar nua pela casa, mas as janelas indiscretas dos apartamentos a tiravam a liberdade. Antes de entrar no banheiro parou em frente ao espelho e admirou-se, abriu a toalha e admirou-se. Logo ao entrar no banheiro ligou a chave da água quente e em seguida a da água fria, aparou um pouco de água nas mãos em concha e molhou o rosto. Para testar se água estava na temperatura adequada colocou apenas um dos pés, esticou um pouco mais as pernas e aos pouco sentia a água descobrindo seu corpo. Ao entrar completamente debaixo daquela água quente, deixou que apenas a água caísse sobre ela, e, ergueu a cabeça como quem se entrega ao desejo de ser possuída.

Derramou o sabonete líquido nas mãos e suavemente passou sobre seu corpo, parte por parte, deslizou sobre seus seios, massageando descendo pelos quadris, as coxas, cada uma teve sua vez, abaixou e completou até os pés, voltando cada movimento até chegar ao pescoço. Suas mãos pareciam que modelavam cada parte de seu corpo, como um escultor modela a argila dando-lhe a forma desejada, seu desejo era de modelar a tranqüilidade que tanto necessitava e que aquele banho a permitia saborear: a água, o sabonete, suas mãos e seu corpo, tudo na medida certa. E, a tranqüilidade surgia.

No bar, os amigos caminhavam para pedida final, um brinde e o desfecho de mais uma confissão terminara no Café Bahia. Bom amigo, devo ir, disse ele, precisamos nos ver com mais freqüência, não podemos deixar que essa louca correria que a contemporaneidade nos impõe nos distancie mais que a própria distância geográfica já o faz. Antes que se despedisse completamente o amigo olhou para ele e disse: reparei desde que nos vimos na fila da lotérica que seu semblante está como quem acabara de ganhar o mais belo presente. Então respondeu: é que os amigos são como as primaveras, trazem alegria ao mundo. Ao encontrar-te naquele momento senti essa alegria trazida por você, pois, és uma constante primavera em minha vida.

Após tanto tempo de confidências, aquela fora a mais bela declaração ouvida por seu amigo. Um abraço apertado e então se despediram. Sabiam que talvez só o acaso pudesse trazê-los de volta ao seu confessionário particular. Afinal, quem está livre da correria imposta pela contemporaneidade?

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O cheiro da primavera

O tempo passou e ele nem percebera, nem fome sentia, já eram quase duas horas da tarde, aquele texto... Ah! aquele texto... Parecia mais um anúncio desesperado dizendo aos gritos: salvem-me! Naquele momento tudo em sua volta desaparecera, era apenas ele, o teclado e aquelas letras que aos poucos iam se organizando e formando aquelas palavras que juntas diziam aquilo que ele temia aceitar: “eu preciso de cuidado”.

Enquanto o seu texto revelava o que ele não queria saber, na faculdade ela pensava: “tenho só hoje, não vou consegui”, era o penúltimo dia para entregar o trabalho final da disciplina que ela menos gostava, era preciso correr contra o tempo. De um lado, o tempo dele parecia não correr, de outro, o dela corria na velocidade da luz. Ela aliviava-se, pois ainda teria a noite e ele desesperava-se, pois ainda teria mais uma noite.

Ele olhou em volta, a faxineira limpando o chão, seus movimentos eram tão atenciosos com cada sujeira que desarmonizava o brilho daquele piso, desejou então ser o chão, queria ter aquele tratamento de tão harmoniosa atenção e cuidado. Olhou no canto direito inferior da tela do computador e o relógio já marcava duas horas da tarde e ele ainda não tinha comido nada, era preciso comer alguma coisa. Na cantina da faculdade ela ria na companhia de seus colegas, serviu apenas verduras, disse que não podia engordar.

Ele olhou para o chefe e disse: vou comer, e foi. Procurou o restaurante mais lotado, ele queria ver gente, queria estar com gente. Não sentia fome, mas era necessário alimentar-se, nada lhe enchia os olhos nas bandejas. Uma pequena porção de arroz integral, um pouco de feijão por cima do arroz e um pedaço de frango fora a composição de seu prato. Algumas mesas vazias. Avistou o alvo, uma mesa com uma bela jovem almoçando sozinha, resolveu aproximar-se.

Com sua licença, posso assentar aqui? Fique a vontade, ela respondeu. Foram as únicas palavras. Antes tivesse escolhido uma mesa vazia, talvez o vazio fosse uma melhor companhia. Não, melhor assim, pelo menos podia contemplar em sua frente aquela silhueta angelical, por um instante sentiu-se fora de órbita. Com sua licença, ela disse, e aquela voz suave o vez voltar ao restaurante. Ela estava se despedindo, acabara de almoçar e ele não percebera. Toda, disse ele. E lá se foi, aquele anjo que por alguns instantes o levou até o céu.

Na faculdade um amigo oferecia carona para ela, muitas coisas a fazer e não podia perder tempo, aceitou. O amigo a levou até em casa, ele tentou beijá-la, mas ela não permitiu, tentou com mais firmeza e ela o empurrou. Saiu furiosa do carro. O que ele está pensando que eu sou? Uma vagabunda? Foda-se! Esse filho da puta, eu sabia que essa corona tinha outras intenções, bem feito, se fudeu. Assim, da próxima vez vai pensar antes de tentar alguma coisa.

Após sair do restaurante, ainda com aquela imagem angelical que fazia seu rosto ensaiar um sorriso, caminhou, caminhou sem destino. Olhou as lojas, as construções, os carros apressados, uma senhora atravessando a rua e ele ali, a observar todos os movimentos.

Estava na hora de voltar ao trabalho. Voltou para sua sala fria e nada aconchegante, tudo ali, naquele dia, se transformou num mausoléu depressivo. Queria sair daquele lugar o mais rápido possível, mas as horas não passavam. Tinha horário a cumprir, tinha que garantir o salário que possibilitava sua sub-vida. Voltou ao texto. Este sim o fazia viver. Mas, não durou muito tempo, logo concluiu o texto e ainda eram cinco horas da tarde. Os seus pensamentos noturnos voltaram a perturbar-lhe a mente. Lembrou de sua espera, não recebera a resposta que tanto ansiava. Olhou sua caixa de e-mail e, nenhuma resposta. O que fazer? Resolveu publicar em sua página virtual sua produção. Ainda faltava algum tempo até a hora de ir embora, então acessou o MSN, talvez encontrasse alguém que o ajudasse a se animar. Nenhuma resposta.

Enquanto ele esforçava-se para livrar-se daqueles pensamentos, ela debruçava-se sob aqueles textos de teorias complexas que de nada valem para a vida cotidiana, talvez, se ela passasse a noite acordada conseguisse terminar seu tão árduo trabalho.

Muitas janelas piscando, o que aconteceu? Todos querem falar comigo? Indagou-se. Quando abriu a primeira janela, entendeu, era o seu texto. Então sorriu. Pela primeira vez naquele dia ele sorriu. Talvez fosse a noite chegando com seus mistérios que encantam. Ou a primavera que se aproximava mais. Eram muitas janelas piscando em sua frente e, as perguntas eram diversas. Todos queriam entender o motivo daquele texto. Mas, nem ele mesmo sabia explicar. Seria mesmo fuga dos seus pensamentos insólitos? Ou seria uma necessidade gritando por sair do âmago de sua alma? Sua resposta era simples: "sentir vontade de escrever e saiu isso". Mas, acrescentando expressou: "é que já sinto o cheiro da primavera".

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Anúncio de uma primavera

O frio está indo embora, à noite, parece que se abriu a porta que vedava o tão temido inferno, suor pelo corpo escorre molhando toda a cama. Rola pela cama inquieto, não se sabe se pesadelo ou são as confluências cotidianas visitando seu sono e dizendo: acorda, volte à vida.

Enquanto dorme seu sono inquieto, ela viaja, mal sabem o que o dia seguinte prepara. Ela não consegue dormir, poltrona desconfortável, motorista que corre demais. Que perigo! As luzes dos postes são como fleches de lembranças daquilo que nunca aconteceu, a luz do dia se aproxima anunciando aquele belo horizonte.

Ele acorda e não acredita, mais uma segunda-feira, olha no relógio, está atrasado, a noite lhe pareceu tão pequena, queria dormir mais um pouco, ainda não entendia a confusão que se instalara em sua cabeça enquanto dormia. Corre para o banheiro e toma o banho mais rápido de sua vida, não podia chegar atrasado ao trabalho, não naquele dia.

Nunca uma ida para o trabalho lhe rendera tanto tempo, teria lido todos os tomos de O Capital naquele tempo, o dia tinha uma áurea diferente, seria o inverno se despedindo? Talvez fosse. Ou talvez fosse a primavera anunciando sua chegada. Está na hora de descer, desperta de seus devaneios e puxa a corda que dá o sinal de parada solicitada.

Antes que o ônibus parasse completamente ele salta e segue correndo em direção ao trabalho, em frações de segundos chega ao trabalho, ainda ofegante, lhe recepcionam com a pergunta: o que aconteceu? Está tudo bem? E ele emite uma curta e simples resposta: cheguei! Nada mais se pronunciou. Aquilo fora suficiente.

Entrou em sua sala, ligou o computador e esperou, só podia esperar. As horas passavam a passos lentos, um dever lhe martelava a cabeça, fazer o seu trabalho, nada mais. Se aqueles pensamentos noturnos o deixassem em paz, talvez conseguisse se concentrar em seu dever diário que garantia sua sub-vida.
Como fuga de seus pensamentos insólitos resolve escrever, escrever sobre a primeira coisa que lhe viesse à cabeça no lapso descuido dos pensamentos que lhe inquietavam a mente. Mal sabia ele que do outro lado da cidade alguém pensava nele. Escreveu algo como quem pede socorro. Ele sentia a necessidade de algo que não sabia explicar. Ela do outro lado o sentia, sentia a necessidade que ele sentia dela sem saber. Teria alguma ligação? Ou seria apenas o anúncio de mais uma primavera chegando? Nada é certo, apenas o incerto. Continuou a escrever. Isso o permitia viver. Viver sem aqueles pensamentos noturnos daquele fim de inverno.
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