Aqui você poderá encontrar muito de mim e espero com isso revelar o que ainda não sabe sobre você. Calma, aqui não será um espaço esotérico. Mas, acredito que no contato com o outro/a descobrimos quem verdadeiramente somos. Sinta-se a vontade em viajar comigo nesses escritos e saiba que o conhecimento é um processo, é uma construção, em que todos/as nós fazemos parte das diversas etapas de sua edificação. Participe desta aventura, venha pescar comigo nesse grande mar que é a vida, onde costuraremos histórias e reflexões acerca dos nossos sentimentos, pensamentos e das coisas da vida, as coisas do dia-a-dia que nos rodeiam.

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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Na simplicidade está o segredo da felicidade


Aquela manhã o dia pareceu-lhe incomum, como se fosse possível isso acontecer, como se houvesse dias comuns. A noite o abraçou como se soubesse de algo que ele ainda estava por descobrir. O sol pareceu-lhe o mais belo de todas as suas lembranças. O vento e a brisa oscilavam entre o frescor, o frio e o calor. Sentia um perfume que pairava pelo ar que não sabia de onde vinha e o fez viajar no tempo. Reviveu muitas de suas memórias adormecidas, perfumadas por um conjunto de aromas suaves. Entre risos, sentiu sua face molhar com uma água salgada que brotava da janela de sua alma e vinha de seu mar interior.

Parecia que tudo resolveu lhe visitar naquela manhã. As árvores pintavam um verde que lhe lembrou dos olhos de alguém, que aquele momento não fez diferença, a beleza daquele verde bastava em si. Nunca tinha visto flores tão coloridas como percebera naquela manhã ao passar por elas. E ali descobriu a origem de tão variados perfumes que o fez chorar sorrindo. Questionou se aquelas flores com aquele perfume tão intenso sempre estiveram por ali, por seu caminho. Ou o que o levara a notar aqueles perfumes tão intensos e aquelas cores vibrantes das flores, que pareciam borboletas repousando de suas tarefas diárias de colorir o vento. Aproximou-se e espantou-se quando viu aquele belo panapaná, multicor, que sua presença fez sair voando do meio daquelas flores e pintaram o vento. Sentiu-se extasiado com visão tão bela e simulou ser um pintor a pintar o ar e riu. Riu de si mesmo, de sua ação delirante e insana.

Ação insana para quem passava por ele e o via a agir sem se preocupar com a censura dos olhares, escravos da padronização da sociedade. E ele, pela primeira vez, sentiu uma sensação de liberdade, mesmo sem pensar sobre o sentido dela, bastava o que seu corpo dizia sentir. Sua manifestação livre e desprendida dos padrões sociais deixava quem passava por ele deslocado a questionar o que viam. Mas, com medo do que encontrariam como resposta, preferiam chamá-lo de louco. Assim são chamados quem decide seguir as vontades do corpo e esquecer as construções racionais (regras) que nos limitam, nos escravizam ao nos impor como devemos agir. O corpo não mente, a mente pode até tentar, mas o corpo denuncia. Hoje, estamos tão acostumados aos padrões sociais que não conseguimos perceber as reações de nosso corpo quando algo nos tira a liberdade. Se soubéssemos ouvir o que o corpo nos diz, conseguiríamos perceber quando não estamos sendo verdadeiramente livres.

Aquelas pessoas não percebiam, mas seus corpos queriam juntar-se àquele corpo que simulava um pintor e que ao pintar o ar parecia mais uma coreografia, parecia dançar ao som de uma canção que só ele ouvia. Existem canções que só os corpos percebem, mas só alguns, livres e sem amarras, e só esses deixam se envolver por elas e assim entram na dança. Eis uma expressão de liberdade, dançar ao som que não se ouve. Os corpos são essencialmente livres, mas a racionalidade humana os fizeram escravos. O corpo dele, naquela manhã, quebrou os grilhões que o prendia e iniciando com o movimento coreografado de quem pintava o ar, começou a dançar.  Dançou ao som da melodia mais bela, dançou ao som da liberdade, acompanhado por aquelas flores voadoras, aquele panapaná com suas cores vibrantes e que deixavam o seu balé mais envolvente. Algo que ele não sabia explicar o envolvia e o deixara leve, a agir como se estivesse sendo levado pelo vento, a sentir-se vento.

Seu sorriso estava contagiante, quem o via desejava estar ali, junto a ele, experimentando sua felicidade insana que contagiava quem dele se aproximava, simulou um ciranda que fez alguns dos passantes juntar-se a ele e enquanto dançavam, a chuva o veio visitar como que para abençoar sua capacidade de levar o riso à vida de quem há muito não sorria. A chuva veio lavar o preconceito de quem ainda relutava entender que a liberdade não é loucura e abençoou quem se juntara àquela dança de alegria, àquela ciranda do respeito à diferença e do riso presente. Ela veio se fazer presente nesta cerimônia que ele ainda não sabia do que se tratava. E já findava o dia quando ela foi embora, veio se fazer presente  e dizer-lhe que estava junto em seu breve propósito de anunciar que o fruto da liberdade é a felicidade. “Breve propósito”! Repetiu ele ainda sem entender tudo que estava acontecendo.

Ainda dançavam quando surgiu no céu um lindo arco-íris, que com suas cores vibrantes dizia que não podia deixar de comparecer em uma despedida tão linda. Despedida? Todos se entreolharam sem entender o que aquele sinal queria dizer. “Despedida!” Repetiu ele que começava a entender tudo que acontecera em seu dia e por ter tido um dia tão magnífico. Todos ainda sentiam uma força superior que os envolviam no mesmo sentimento de amor. Então o arco-íris partiu, deixando em evidência um céu límpido e de um tom de lilás jamais visto, que lentamente foi escurecendo, e sol, lá no horizonte, enviava uma luz hipnotizante e parecia não querer ir, mas não podia ficar e, de longe, ninguém viu, mas o sol chorou por ter que partir e deixá-lo ali. A noite voltou com todo seu mistério e desta vez mais misteriosa do que nunca, mas ele já percebera o que aquele dia o reservara, sentia no profundo de sua alma o motivo de aquele dia ter sido tão diferente. Então ele, olhando cada mulher, cada homem, cada criança e cada ser que esteve com ele naquela dança, disse: “chegou a hora, já sinto a presença dela, sinto que, hoje, ela se aproxima de mim”.

Na verdade, todos os dias de sua vida tinham sido assim, ele só nunca o percebera, pois para ele sorrir e fazer o bem nunca foi  algo extraordinário, sempre fora uma prática cotidiana. E naquele dia, o cosmo apenas o fizera perceber o valor de sua vida de simplicidade, de amor e cuidado com os seres da terra. A lua começou a ocupar seu lugar na órbita terrestre e as primeiras estrelas começaram a iluminar o céu e ele a se maravilhar com o que via e disse: “cada ser tem sua estrela que brilha através dos sorrisos que damos ao outro sem que para isso precisemos perdê-lo, pois o riso não se subtrai quando o damos, o riso se multiplica e torna a vida mais bela”. Como gesto de agradecimento por ter uma presença tão sublime ali, todos o abraçaram, num abraço que transmitia bem querer, aconchego e paz. E, em meio aquele abraço, olhou o céu e rio para a lua que lhe sorria, e agradeceu os milhões de risos das estrelas que também vieram fazer presença no dia do seu encontro mais esperado.

Em meio aquele gesto de amor de cada pessoa que entrou na ciranda, em que a lua e as estrelas vieram iluminar seu encontro tão esperado, seus olhos transmitiam uma esperança penetrante, esperança na humanidade, esperança que a realização de um mundo melhor é possível.  Olhando cada rosto que estava ali a lhe abraçar, pronunciou as seguintes palavras: “Amada morte, será hoje nosso encontro mais profundo? Ou queres apenas um beijo meu?” Questionou já sabendo a resposta, e acrescentou: “Diante de ti, resta-me apenas, entregar-me”. E expressou o sorriso mais belo que um ser humano fora capaz de expressar, por saber que aquele encontro era sinal que sua missão tinha chegado ao fim, e sorrindo fechou os olhos e adormeceu, nos braços daquela ciranda de amor.

E todos que ali estavam não choraram, foram preenchidos por uma alegria nunca sentida. Todos se admiraram quando a luz do luar e das estrelas concentrou-se sobre o corpo dele que era aconchegado naquele abraço coletivo. E como mágica seu corpo converteu-se em pura luz e espalhou-se no ar, e todos se viram abraçados como se estivessem assinando uma aliança de amor.  E então souberam que aquela presença era o amor que se fez humano para nos ensinar que na valorização das coisas simples, do cuidado com o próximo e com a natureza está o segredo da felicidade. E a maré que passou o dia inteiro agitada acamou-se e recolheu suas ondas deixando que aqueles raios de luz iluminassem suas águas.


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