Aqui você poderá encontrar muito de mim e espero com isso revelar o que ainda não sabe sobre você. Calma, aqui não será um espaço esotérico. Mas, acredito que no contato com o outro/a descobrimos quem verdadeiramente somos. Sinta-se a vontade em viajar comigo nesses escritos e saiba que o conhecimento é um processo, é uma construção, em que todos/as nós fazemos parte das diversas etapas de sua edificação. Participe desta aventura, venha pescar comigo nesse grande mar que é a vida, onde costuraremos histórias e reflexões acerca dos nossos sentimentos, pensamentos e das coisas da vida, as coisas do dia-a-dia que nos rodeiam.

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terça-feira, 22 de junho de 2010

Um dia especial

Ontem iniciei minha noite de descanso com um clima seco e abafado, pela manhã, de hoje, o dia parecia não querer amanhecer, um dia levemente “fresco” (no sentido originário da palavra) rsrsrs, seria um convite a ficar mais na cama? Ou um “sinal” de que deveria descansar destes dias, meses, ano tão corrido que tenho vivido? Não sei! A vontade de ficar mais um pouco na cama foi imensa, mas, hoje, é um dia como os outros de uma semana, é um dia de trabalho, estudo, reuniões, etc. É mais um dia de correria! A diferença deste dia dos outros dias do ano é básica e revolucionária. (Explicarei adiante)

Ao chegar a meu trabalho, e ao acessar minha caixa de correio eletrônico, vi uma mensagem com título: “Feliz aniversário”. Abri a mensagem e ela iniciava exatamente com a seguinte frase: “Hoje é um dia especial”. Essa frase, talvez mais veloz que a luz, fez um passeio em minha mente, passeio que teve como resultado a seguinte indagação: Hoje é um dia especial? O que é um dia especial? Para quem é especial?

Olhei para os meus dias passados, para os meus anos vividos e vi que todos os meus dias foram especiais. Não preciso que chegue o dia em que completo mais um ciclo de vida para dizer: hoje é um dia especial. Mas, a diferença básica e revolucionária que traz o dia do aniversário, pode explicar o motivo pelo qual esse dia é intitulado de especial.

Ao pensar sobre a especialidade do dia de nosso aniversário, fiz, de fato, uma viagem mental. O dia do aniversário é especial a primeira vista por ser o dia em que se completa mais um ciclo na vida de alguém, contudo, não são todos os ciclos de vida que são especiais, existem “vidas” que não gozam de elementos em seu dia-a-dia que tornaria o dia do aniversário especial. Mas, mesmo o dia de aniversário não especial para o aniversariante, será especial para aqueles que se relacionam com quem está aniversariando, os amigos.

Isso me leva a crer que seja esse o maior motivo pelo qual se intitula o dia de aniversário como especial, ter a presença de quem aniversaria junto de nós. A presença aqui toma o sentido de existência. O simples e notável fato de existir – seja aqui tão próximo que possamos tocar o outro ou distante ao ponto de só podermos manter contato pelas ferramentas que aproximam vidas, os meios virtuais, cartas, telefone ou mesmo a ciência de que outro esteja lá – já nos faz declarar o dia do aniversário como especial.

Outra dimensão que faz ver o dia de aniversário como especial está vinculada a revisão que devemos fazer a cada ano completado, seja de estudos, relacionamentos afetivos, dentre tantos outros. Mas, sobretudo, de nosso projeto pessoal de vida, bem como, as projeções que faremos para o ano que chega. Esta dimensão me levou a pensar ao que chamaria de o grande aniversário, que todos nós comemoramos: a festa de ano novo.

A “festa de ano novo” é um dia especial, é o dia em comemoramos o fechamento de um ciclo e início de outro na história da humanidade. Essa é a diferença básica e revolucionaria do dia do aniversário dos demais dias do ano, neste dia nós celebramos um ano que se passa e um novo ano que se inicia. Esta é a nossa festa de ano novo!

Celebrar a chegada de um novo ano nos possibilita olhar para o ano passado, ver tudo o que passamos: tristezas e alegrias, derrotas e vitórias, “sanidades e loucuras”, conquistas, choros e risadas, amigos reconhecidos e amigos que se vão, um amor intenso, um sofrimento louco e satisfações infindáveis, um amor pela vida inesgotável e dizer mais um ano se passou, mais um ano vivido e/ou menos um ano para se viver. E, com esse olhar, poderemos projetar um ano novo cheio de boas realizações. A possibilidade de um próximo ano melhor torna o dia do aniversário especial até para quem não gozou de um bom ano. O dia de nossa festa de ano novo, o nosso aniversário é, assim, um dia de esperança, um dia especial!

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Estas palavras foram costuradas por ocasião do meu 27º aniversário, um ano recheado de dias especiais, e esse dia então...

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Jogando com frases prontas e respostas inesperadas


Costumo escrever frases que acredito que chamarão atenção de quem se deparar com elas. São resumos de muitas emoções, experiências, acúmulos dos nossos encontros e desencontros, sonhos, projetos, desejos. Carregam muitas vidas em si, por isso prendem ou chamam atenção. E, isso, também, me faz tomar o cuidado que tenho com cada frase criada. Esses pequenos resumos de experiências de vidas são frágeis e eu temo perde-los nos acúmulos de meus complexos refluxos mentais. Por isso, eu anoto cada frase em meu pequeno caderno de anotações ou em algum lugar possível de escrever, caso esteja desprovido de material de anotação adequado. Minha carteira de trabalho já escapou algumas vezes de se tornar mais um instrumento de escrita de minhas frases, meus versos simples, mas vindo do âmago das experiências da alma.

As frases surgem e devem ser cuidadosamente guardadas, registradas, para que depois ganhem um lugar de destaque, elas não pertencem a mim, sou apenas instrumento que as possibilitam chegarem ao conhecimento de muitos, por isso, as coloco na chamada do MSN, Orkut, Twitter. Talvez se tornem, após uma cuidadosa costura, textos mais amplos, complexos, como: artigos, poemas, crônicas, romances que possam ser expostas em sites, blogs ou em um belo livro, de capa dura, com o título escritos em letras douradas ou, caso continuem frases, ganhem destaque em cartões ou mesmo um pára-choque de caminhão.

Os fins das frases podem ser os mais diversos. Eu costumo recorrer a elas nas costuras de meus textos, mas, dia ou outro, costumo postar algumas em meu Twitter, MSN, Orkut e agora, mas recentemente no FECEBOOK. Gosto de perceber a reação dos meus amigos virtuais ao se depararem com minhas frases. As reações são as mais diversas e isso é gostoso de viver. Mas, às vezes, sou pego por uma charada utilizando frases que eu mesmo criei. Gosto de trocadilhos, de jogos de palavras, de metáforas, mas, tenho sido vítima de minhas frases. Como costumo postar minhas frases em meus espaços de comunicação virtual, meus contatos as tem utilizados para manterem contatos comigo e darem início aos diálogos que costumamos desenvolver nestes espaços.

Talvez minha distração tenha possibilitado cair nas armadilhas que eu mesmo tenho ajudado a construir, mas como eu sou um de seus criadores tenho me saído bem delas. Afinal, se as frases são minhas, devo eu ter desenvolvimento/saída para as charadas criadas com elas. Mas, ando tão distraído que já não atendo quando ouço chamar meu nome. Outro dia mesmo acordei de um sonho sem mesmo ter dormido. Talvez, estar em órbita tenha me colocado nesta situação tão desprivilegiada para mim, ao me deixar desarmado diante das piadas que sempre antecipei as respostas a elas, o que geralmente surpreende quem se aproxima de mim.

Imagine que outro dia eu estava conversando com uma amiga pelo MSN e sem que eu percebesse entramos em um jogo de palavras, uma espécie de jogo de conquista. Ela se aproveitou do momento em que escrevi para ela uma sincera frase em que expressei sua singularidade em minha vida, creio que tenha dito algo do tipo que sua presença em minha vida era como o sentido da luz do luar nas noites dos amantes. Ela de imediato disse: “frase pronta” e me devolveu o diálogo com uma frase que estava na chamada do meu MSN, “queria apenas uma companhia que me desejasse!” Não percebei que neste memento o jogo tinha começado, então apenas respondi com um sorriso (rsrsrs), foi quando percebi que tinha perdido o jogo, eu não dei seqüência ao jogo de palavras, neste caso de frases. Então ela disse: “perdeu” e completou ao dizer o que poderia ser minha resposta, tentei recuperar o jogo ao dizer uma frase justificando meu riso, mas, não se recupera a quebra do jogo de frases prontas. Mesmo sabendo que não se recupere um jogo com frases prontas, quando se cala na sua vez de falar, minha reposta foi tão inesperada que ela se rendeu a minha virada de jogo.

Você deve pensar que sou louco em participar de coisas desse tipo. Ou, dizer que isso pode ser coisa de quem não tenha algo importante para fazer na vida. Tenho muitas coisas e creio que a mais importante é fazer aqueles que se aproximam de mim, felizes. E são essas pessoas e o contato/relação com elas que eu enveredo na criação de inúmeras frases, cada uma com sua beleza singular. Elas carregam em si, os resumos das inúmeras relações que estabeleço. Enfim, tenho inúmeras frases prontas e gosto muito de elaborá-las, ainda mais quando estou diante de fatos e pessoas que me inspiram. Acredito até que poderia ganhar um trocado criando frases para pára-choque de caminhão. Descobri uma coisa, neste meu processo criativo de frases: “Pior do que escrever a alguém e não receber resposta é esperar resposta do que nunca se pronunciou”.

PS.: Ao costurar sobre frases prontas, não poderia terminar a costura de forma diferente, se não, com uma das minhas inúmeras frases que guardo com tanto zelo.

sábado, 29 de maio de 2010

Dona Mundica

Ao iniciar este mês, me propus escrever no dia das mães uma mensagem para a minha mãe e postar neste espaço. Os dias foram passando, o segundo domingo do mês se aproximando e nada de belo o suficiente vinha em minha mente para definir ou expressar a admiração e amor que tenho por ela. O dia das mães chegou e eu não tinha um texto rebuscado, pronto, para postar aqui, apenas uma pequena frase, achei que minha mãe merecia mais. Recusei-me a postar uma pequena frase para dizer o que sinto por esta mulher tão maravilhosa que é minha mãe.

Por achar insuficiente a frase, ou diminuta demais, meu blog, no dia das mães, ficou sem a costura que eu desejava postar em homenagem a minha. Devem existir outras formas de dizer o quanto amamos alguém, o quanto sua existência é importante em nossa vida, o quanto o simples fato de ela existir em algum lugar no mundo já nos torna pessoas melhores e mais felizes. Talvez seja um grande erro, e digo talvez, por, de fato, não ter a menor certeza, tentarmos expor em palavras ou mesmo gestos a grandeza dos nossos sentimentos. E mais um incerteza de erro é quando exigimos que o outro/a demonstre o quanto nos ama ou o quanto somos importantes para ele/a.

Ao não conseguir dar forma verbal, gestual, escrita ou qualquer forma visual a tudo que minha mãe representa em minha vida, percebi que não é por não dar forma aos nossos sentimos que não os temos e ousaria até dizer, que esses sentimentos que não conseguimos materializar em gestos, sejam os mais belos. Enfim, no dia das mães eu liguei para falar com minha mãe, desejei para ela o que geralmente desejamos nessas datas, mas não disse tudo. Acredito que as mães são capazes de perceber essas coisas, creio que as mães são capazes de ler a alma dos filhos, por isso fiquei tranqüilo, de alguma forma ela sabia o quanto eu a amo, o quanto ela é importante para mim, sem que eu possa pronunciar qualquer palavra.

Mas, o que me levou a escrever, hoje, quase no final do mês, para contar que não escrevi no dia das mães o que desejava escrever? Além da frase que insistia em permanecer em minha mente, algo que me aconteceu na última quarta-feira tornou a minha mãe mais presente em meus pensamentos diários. Fui acometido por uma gripe na última quarta-feira e lembrei-me das vezes em que podia ser cuidado por minha mãe. Das várias noites em que deixou de dormir, para velar minhas noites de agonias durante as inúmeras crises asmáticas que tive durante minha infância e adolescência.

Nestes últimos dias do mês de maio, mês em que lembramos a importância de nossas mães e que eu esperava costurar um belo texto em homenagem a Dona Mundica, Dona Raimunda ou mesmo Dona Hermenegilda, ou melhor, a dona da minha vida, que me entregou ao mundo, minha mãe, uma gripe me fez reviver a presença dessa mulher tão especial em minha vida.

Algumas lembranças me foram recorrentes e, para evitar tornar esta costura longa demais, direi apenas alguns de seus gestos durante o tempo em que vivi com ela: lembrei dos seus cuidados quando eu adoecia; os chás – eu adorava o chá de erva cidreira, creio que era na casa da minha Vó que ela buscava; as misturas medicinais – pílula do mato amassada com mel; limão com mel – hoje acrescento uma cachaça e a coisa fica ótima; as batidas de ervas amargas que me obrigava tomar para sarar logo; as massagens em meu peito quando eu não conseguia respirar; lembrei das madrugadas em passava na máquina de costura fazendo os últimos ajustes na roupa que usaríamos na manhã seguinte; as noites em que juntava eu e meus irmãos para rezarmos o terço antes de dormir; sua cara censurando nossos risos ao não acertarmos a ave-maria, e depois seu riso ao perceber que a reza já tinha virado piada; lembrei dela me ensinando a pedir a “bença” ao papai e mamãe do céu; a me ensinar a rezar pedindo a proteção do anjo da guarda e não dormir sem camisa, se não, Nossa Senhora passava e não olhava; lembrei das tantas manhãs em que ela acordava mais cedo e esquentava um pouco de água para deixar a água da bacia morna e eu não ter que tomar um banho gelado tão cedo da manhã; lembrei das manhãs em que preparava um mingau de aveia, ou mesmo de farinha com leite, antes de eu ir para escola; lembrei do seu abraço apertado, não querendo me largar e seu choro que me apertou o peito ao se despedir de mim quando eu fui embora.

Enfim, lembrei de tantas coisas e é melhor parar de expor essas lembranças, são tantas, elas me enchem os olhos de lágrimas e de alegria na alma, por ter nascido desta mulher que tanto amo e admiro. Mas, vale dizer que desejei muito, esses dias, ser ainda aquele menino, desejei ter todos aqueles cuidados novamente. Desejei ter minha mãe aqui, queria deitar em seu colo, como fiz uma vez quando já não era mais criança e chorei. Ela não disse nada, apenas fez cafuné, como só a mãe da gente sabe fazer, e mais uma vez velou meu sofrimento e seu carinho naquele momento era a única coisa que podia me acalentar.

É... Mãe, eu nunca soube como dizer tudo o que sinto por você e a única frase que consegui construir no dia das mães expressa a minha limitação em dizer o que és para mim. A frase que me acompanhou durante todo esse mês foi essa: "há tanta beleza em teu ser, que nenhum poeta no mundo seria capaz de descrevê-las". Sei que nem os poetas, os artistas conseguiriam descrevê-la, mas, quem sabe, um dia, com os avanços das ciências, a humanidade conseguirá ter acessos ao que verdadeiramente sinto por você, ao conseguir mapear os sentimentos mais puros existentes no coração deste teu filho. Será consentido aos seres da terra, abarcarem a dimensão do amor de um filho? Como conhecer o que representa a tua presença em minha vida se tua beleza só poderá ser descrita através das almas humanas na leitura do coração? Creio que se um dia alguém for capaz de conseguir decifrar os corações humanos, ao se depararem com o meu, encontrariam todo o teu ensinamento. Teu olhar e cuidado que forjou minha alma construindo o meu eu. Tua garra destemida que me ajudou a seguir em frente e a acreditar nos meus sonhos que me fizeram partir. Fazendo-me aprender a viver sem tua presença, sem teu carinho diário e talvez o que mais sinta falta, sem o teu colo de mãe.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Cantando a memória de uma identidade ameríndia.

Conviver é uma necessidade humana e para a juventude o desejo de estar em grupo se tornou uma necessidade fundamental. Na vida grupal, cada pessoa, sobretudo, jovem, descobre-se e descobre o outro. É nesta convivência que aprendemos a nos aceitar e a aceitar o outro. No grupo, experimenta-se o estar junto com outros iguais a mim, nele sou aceito e esta aceitação me satisfaz. É isso que te satisfaz?
No convívio com o outro vou me constituindo como ser, construo minha personalidade, solidifico minha identidade. Neste lugar me realizo, posso partilhar sobre mim, partilho meus sentimentos e ideais, partilho meus valores e descubro outros, às vezes, bem maiores que o meus. Descubro com quem posso verdadeiramente contar. Na minha vida em grupo/comunidade, reconheço que existe muita coisa antes mim e para além de mim. E esse convívio me ajuda a perceber o quanto é importante não esquecer. Não esquecer nossa história, não esquecer o que veio antes da gente e nos ajuda a sermos o que somos hoje e que é preciso cuidar desse lugar. Você cuida desse lugar?

Precisamos resgatar a valorização de nossas raízes, nossas culturas tradicionais, pois conhecer a cultura de nossa gente nos ajuda a entender e fortalecer o significado de nossos valores. Não deixar no esquecimento nossas culturas tradicionais é fundamental, precisamos resgatar nossa cultura, nosso folclore, nossas raízes, isso nos garantirá que não percamos nossa identidade como povo brasileiro. Qual é a tua identidade? Você tem identidade?

Não somos jovens sem passado, temos em nós a memória de nossa gente. Na nossa convivência descobrimos quem somos e de onde viemos, na diversidade do aconchego que forma nossa vida em grupo redescobrimos nossos costumes, tradições até a própria língua por muitos esquecidos. Em nossos abraços sentimos pulsar em nós, a mistura do sangue, índio, negro, europeu, asiático, que nos forma como povo latino americano, ameríndios.

Somos chamados a rever nossas atitudes diante de nossa memória, não podemos medir esforços no resgate de nossos valores e identidade cultural. Viemos dessa mistura étnica com mitos, música, dança, costumes e linguagens diversas que cada vez mais, entra no baú do esquecimento. Quem é você? De onde você veio?

Quem canta não esquece, assim cantemos nossa capacidade de fazer memória. Cantemos juntos sem distinção. Cantemos a consciência ecológica por muitos esquecida. Cantemos nossas matas, nossos quilombos. Cantemos o campo e a cidade. Cantemos as terras de muitos cantos sedenta por água. Cantemos as águas que são estradas de nossas comunidades ribeirinhas. Cantemos a chuva que mata a sede e nos diz que está na hora de rever nossa atitude em relação ao plenata. Vamos soltar a voz e cantar nossa história, nossos povos, nossos valores, nossos costumes. Vamos cantar a beleza se sermos latino-americanos, de sermos ameríndios.

domingo, 16 de maio de 2010

História de pescador?

A leve brisa que sopra a fresta do quarto da casa de madeira anuncia que está na hora de levantar-se. Ele olha ao seu lado e vê a silhueta de sua esposa dormindo um sono invejável e delicadamente movimenta-se para não acordá-la, não queria importuná-la, não aquela madrugada com tem sido a rotina de seus 35 anos de casados, deseja que pelo menos naquela madrugada sua esposa tivesse uma completa noite de sono. Usou de toda sua calma, paciência e silêncio tão precioso e necessário em seu ofício para dosar seus movimentos ao sair da cama. Após minuciosos e cuidadosos movimentos consegue levantar-se sem interromper aquele belo e calmo sono que fazia sua esposa sorrir enquanto dormia. Caminha pela casa tendo apenas seus pensamentos e o vento que assobiava pelas frestas da casa, pensava em seu ofício diário, sua cama, sua esposa e seu sorriso adormecida, o tempo que perdia longe dela ao tentar garantir seu sustento de sua vida e se indagava, estaria garantindo sua vida ou perdendo-a? Pensou em todas as vezes em que mesmo querendo ficar ali e aproveitar o aconchego da cama, o calor daquele corpo que o fazia companhia e tornara sua vida tão feliz, teve que levantar e seguir para seu ofício.

Mas, aquele era a sua rotina, todo dia a mesma coisa, antes do sol despontar, e antes da lua beijar o mar, ele levanta-se e seguia para sua lida. Todo dia contemplava aquele rosto, aquele sorriso, aquele corpo que sentia-se obrigado a deixar ali, mesmo querendo ficar, para cumprir sua rotina. Que árdua rotina, deixar o aconchego daquele riso, aquele abraço que fica mais gostoso na madrugada e que nos chama a ficar sempre ali, aproveitando até o último momento.

Pela casa o vazio daquela vida que no quarto dormia, em cada canto a lembrança fria de cada momento vivido, as brigas e beijos, os choros e os risos, o gol e o último capítulo da novela, a mesa pronta servida com sua comida favorita, as danças ao som da rádio da cidade, o enterro do cachorro, o banho frio para superar o calor dos dias quentes, ouve ao longe o som das lembranças: amor o chuveiro queimou! Vem logo pra cama! O jantar estar pronto! Vamos ao cinema? Tem um circo na cidade! Chegou visita! Vou preparar o café!

Café? O café, perdido em seus pensamentos e em todas as lembranças que o resolveram visitar naquela madrugada, esqueceu do café, afinal e era ela que sempre com ele levanta-se e ia lhe preparar o café que o servia o dia inteiro em sua lida. O café que o fazia sentir-se sempre ali, ao lado dela, venerando o seu amor. Distante, sentia-se em casa e aquilo lhe confortava, era sua força para superar a distância que diariamente o acompanhava.

Caminhou em silêncio até a cozinha, pegou a panela, mediu a água e pós no fogo, em alguns minutos estaria pronto, não seria como o dela, mas era preciso ser assim, pelo menos naquela madrugada queria que sua esposa dormisse seu sono merecido. Enquanto esperava o aquecimento da água, preparou a mesa, tudo em seu devido lugar, faltava o pão, o pão! Estava na hora do padeiro passar, para garantir o sono de sua amada, abriu a porta da cozinha que dava para o quintal, deu a volta na casa e cuidadosamente abriu o portão, ao longe avistou uma bicicleta com um cesto em sua garupa. Era o padeiro, acenou e esperou, fez sinal para o padeiro mantivesse o silêncio. Dois pães, por favor! Com os pães em mãos agradeceu, despediu-se e entrou. Pôs os pães sobre a mesa.

A água no fogo fervia, pegou o saco de pano, colocou sobre o bule, colocou os grãos no moedor que renderem uma porção de aproximadamente duas colheres de sopa cheia de pó de café, açúcar suficiente para deixar o café levemente amargo e despejou a água. A água quente, ao encontrar aquele pó, penetrou-o e o fez exalar seu cheiro pelo ar, o cheiro inundou a casa, passando pelo corredor chegando até o quarto.

Sua esposa que no quarto gozava de um belo e calmo sono que a fazia sorrir enquanto dormia, sentiu aquele cheiro, abriu levemente os olhos e ameaçou levantar, precisava tanto daquele sono que não percebeu que estava só na cama, pensou que fosse um sonho, fechou os olhos e voltou a dormir, mas agora seu sonho tinha um cheiro de café da manhã, então sonhou, sonhou que naquele dia seu marido resolveu lhe fazer uma surpresa, primeiro, tinha decido não ir trabalhar, mas levantou como sempre no mesmo horário e sem que ela percebesse, saiu da cama, preparou o café, colocou a mesa, ornou com o vaso de tulipas que ela com tanto zelo cuidava, e voltou para cama para curtir sua companhia até que o sol anunciasse um novo dia. E, assim que os raios de sol invadiram todas as frestas da casa de madeira, das telhas expostas sem o forro, ela a abraçava como no seu primeiro encontro, e beijando-a dizia: amorzinho, está na hora de levantar, o café está pronto, só falta você e seu sorriso para completar a beleza deste dia.

Enquanto ela sonhava, ele verificava se tudo estava ali, seus materiais, a mesa pronta e a garrafa térmica de café, que naquele dia teria outro sabor, um sabor de cuidado, de recompensa, cuidado diária que sua esposa tinha ao levantar-se junto com ele para ajudá-lo a preparar os seus dias de ofício, mas, naquele, após 35 anos de cumplicidade, foi sua vez de cuidar e ajudar sua esposa a preparar seu dia, mesmo que foi com um pequeno gesto simples de preparar o seu café e deixá-la gozar de uma noite inteira de sono. Ouviu o canto dos maçariquinhos, foi até a janela da cozinha, da qual é possível ver o rio, e viu que o rio já havia baixado, anunciando a vazante da maré, era preciso ir, estava na hora. Mas, antes era preciso fazer uma coisa.

Foi até o quarto, olhou para sua esposa que ainda estava sonhando com a bela surpresa que tinha recebido, lamentando ter que deixá-la ali, aproximou-se, sentou-se na beirada da cama, mexeu nos cabelos de sua amada e que cobria o seu rosto e escondia aquele sorriso resultante do belo sonho em que ela se encontrava. A aproximação dele misturou-se ao sonho dela. Ela sentia o beijo que ele lhe dera como despedida ou até logo, em função de se encontrar em saída para sua rotina de trabalho. Após beijá-la, ele diz baixinho para não acordá-la: “Amorzinho, está na hora de eu ir, deixo seu café pronto, só vai faltar você e seu sorriso para completar a beleza deste dia quando eu estiver no mar”. Puxou a manta e a cobriu a fim deixá-la mais confortável e impedir que a brisa que invadia o quarto pelas frestas da parede de madeira a incomodasse. Levantou-se, mais uma vez com todo cuidado possível, foi até a porta, virou-se para trás e olhou mais uma vez sua esposa que ainda dormia e sorria. Ela como que sentido o vazio no qual o quarto ameaçava entrar, e em atenção as palavras que seu marido em sonho lhe dizia para levantar, abriu levemente os olhos e achou que o viu saindo. Ela pressiona as mãos fechadas sobre os olhos para melhor ver e se percebe só e o café.

O café? Percebeu que havia passado da hora, aquele sonho pareceu tão real, não entendo o que havia acontecido resolveu levantar-se e verificar o que estava acontecendo, foi então até a porta do quarto de onde era possível ver o acesso a cozinha e a saída para o quintal, avistou ele que pegava sua tarrafa, colocou-a no paneiro, onde estava a garrafa de café, junto com os outros materiais necessário para mais um longo dia de pesca, colocou o paneiro no cabo do remo, saiu pela porta da cozinha e caminhou em direção a sua canoa que o esperava quase em seco, pois o rio havia baixado depressa demais. Ela, enrolada na manta, corre até a porta da cozinha e grita suave ao seu amado com um riso triste em sua face: “amor! Não demora! Volta logo!”. Ele olha para trás e vê aquela linda mulher enrolada em uma manta que há alguns minutos tinha deixado na cama, pensou em tudo que passou por sua cabeça desde que levantou-se da cama.

Deixou seus materiais caírem no chão e foi ao encontro dela com aquele sorriso triste ao se despedir e que lhe pedia que ficasse, antes que ela se desse conta, ele a abraça, como se aquele fosse seu último abraço. Ela abre a boca para dizer-lhe algo e ele a impede com um demorado beijo, um beijo como eles nunca haviam experimentado, era uma mistura de amor, cumplicidade, desejo e realização. Ela tenta dizer alguma coisa e ele mais uma vez a impede de pronunciar qualquer coisa que seja além dos gemidos provenientes da satisfação daquele beijo que lhe tirava o fôlego. Após, uma luta que não queria travar contra aquele beijo ela consegue chamar atenção de seu amado e, sem parar o beijo, ela aponta em direção ao rio, que àquela altura, já estava seco e junto o casco, e diz ao seu marido: “Amor, você vai ter um trabalhão para empurrar o casco até alcançar a água”. Ele, sorrindo lhe diz, “Não terei não”. Ela: “Como não?”. Ele a abraça aconchegantemente por trás e lhe diz em seu ouvido como em uma jura de amor: “Ficarei aqui, juntinho de você, meu amor”.

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