Aqui você poderá encontrar muito de mim e espero com isso revelar o que ainda não sabe sobre você. Calma, aqui não será um espaço esotérico. Mas, acredito que no contato com o outro/a descobrimos quem verdadeiramente somos. Sinta-se a vontade em viajar comigo nesses escritos e saiba que o conhecimento é um processo, é uma construção, em que todos/as nós fazemos parte das diversas etapas de sua edificação. Participe desta aventura, venha pescar comigo nesse grande mar que é a vida, onde costuraremos histórias e reflexões acerca dos nossos sentimentos, pensamentos e das coisas da vida, as coisas do dia-a-dia que nos rodeiam.

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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Um convite a reflexões mais profundas: uma reflexão sobre as organizações juvenis na contemporaneidade


          
          Duas costuras elaboradas em preparação a 15ª ANPJB (Assembléia Nacional das Pastorais da Juventude do Brasil) intituladas “A velocidade da vida contemporânea”, foram uma tentativa de esboçar um panorama da realidade da juventude brasileira na complexidade da vida contemporânea com o intuito de relacionar, de alguma forma, os desafios desta realidade com a ação desenvolvida pelas Pastorais da Juventude do Brasil. Contudo, suas reflexões podem contribuir, também, com os momentos de reflexão e decisão sobre a vida de algumas organizações no seio da Igreja e movimentos sociais.
Ambas costuras tinham o intuito de despertar os leitores para um novo olhar sobre a vida contemporânea, de modo especial relacionado à vida da juventude, apontavam para um olhar cuidadoso, no sentido de estarmos mais atentos à ampla e complexa realidade que estamos inseridos. Será que estamos realmente inseridos? Se sim, como estamos? Estas indagações foram um balizador da reflexão instigada, pois, muitas vezes nos deparamos com ações desenvolvidas por diversos grupos da Igreja que parecem viver em um mundo completamente fora da órbita da realidade atual[1]. Práticas cada vez mais recorrentes e mais amplas e que, preocupantemente atingem e influenciam grupos que desenvolvem práticas embasadas em uma lógica mais sólida e menos superficial no serviço à juventude. Encarar esta realidade de ações superficiais no trabalho junto à juventude, faz-nos ou deveria nos fazer questionar sobre nossa presença e atuação neste chão duro e árduo da contemporaneidade tão evidentes.
É possível cometer equívocos, mas, diante da realidade apresentada por tais organizações e por uma escuta profunda dos interlocutores de suas ações desenvolvidas, esta pode apontar se tais ações apontam para um enfrentamento ou fuga do mundo real. Na ação da Igreja Católica junto às juventudes não podemos negar o diferencial dos serviços oferecidos pelos Centros e Institutos de Juventude, que, junto a outras organizações presentes na Igreja, como as pastorais da juventude, e organizações sociais, apresentam significativa inserção na complexa realidade da juventude contemporânea da sociedade de forma geral. Um importante exemplo é a Campanha Nacional contra a Violência e Extermínio de Jovens, desenvolvida pelas pastorais da juventude.
Se assim é, o que acontece com a dinamização das organizações eclesiais com missão voltada para ação social, política e valorização da vida em plenitude que parecem a cada dia estarem mais fragilizadas? Esta reflexão em que colocamos nosso olhar voltado para estas organizações é apresentada de forma mais ampla por François Dubet em sua obra “El declive de la  instituición”[2]. Tudo aquilo que ele apresenta em seu texto muito tem a dizer para as organizações sociais e conseqüentemente para as organizações eclesiais que estão preocupadas com a vida do povo. O texto aponta para algo que muitas organizações já vivenciam há tempo. Mas, que, como uma reação comum nas instituições, fogem do enfrentamento com o novo e de encarar que a proposta que as instituições tendem a defender não corresponde mais as realidades que a vida contemporânea apresenta.
Algo a destacar na reflexão de Dubet é que não são as instituições em si que estão em crise, mas os programas institucionais que estas instituições tanto se recusam em modificar ou mesmo a abandonar e, assim, entram em crise. Isso acontece muitas vezes pelo medo gerado diante de propostas ousadas e renovadoras. Dubet aponta em seu texto, que as novas propostas surgem para que as instituições tenham continuidade e não para que elas acabem. Contudo, se há uma irredutividade a mudança, isso sim levará ao declínio a instituição.
Para se pensar novas propostas, as instituições não podem deixar de estarem em sintonia com seus destinatários/interlocutores, no caso das instituições que esta reflexão se destina, as juventudes. Sem um movimento de escuta destes interlocutores, o máximo que se poderia fazer seria uma reflexão teórica sobre tal realidade. Quem pode e deve dar conta de apontar a direção a ser seguida é a própria organização, através do envolvimento de todos os atores que fazem parte da mesma, sempre atenta à realidade em sua totalidade, dando voz e vez àqueles a quem a ação é destinada, os jovens e as jovens. 
A leitura da realidade a partir dos sentidos e das percepções dos/as jovens poderá dar uma evidência mais fortificada ao que parece estar fragilizado. Este tipo de leitura nos permitirá, não só ver, pois, a visão muitas vezes nos mostra o que parece ser e não o que de fato é. Uma atenção neste formato nos levará a vivenciar diretamente a realidade concreta, o que possibilitará oferecer, de fato, o que os atendidos necessitam e esperam que se ofereça a eles. Lembremos o que disse certa vez Carmem Lúcia (da CAJU), em um momento de planejamento e construção de um plano de ação. Ela indagava sobre até que ponto o que estávamos oferecendo a juventude era o que eles precisavam ou era o que achávamos que eles precisavam. Esta indagação dever estar presente constantemente em nossa prática e em nossos planejamentos.
Pensar em uma leitura da realidade que perpasse pelos sentidos e percepções da juventude é estar atento a toda globalidade social dos indivíduos, tais como sua realidade: cultural, econômica, política, étnica, identitária e religiosa, entre outros aspectos. Se fecharmos os olhos será possível vermos nosso grande neotéfilo, Hilário Dick, pronunciar que: “isso de fato é ouvir os gritos da juventude”.
A escuta dos gritos da juventude deve provocar em nós um movimento de transformação e renovação de nossa prática. Poderia se dizer que se há irredutividade de qualquer organização em rever seu programa, demonstra que esta sofre do mal da institucionalização das organizações sociais, que é a existência pela própria existência e não mais por aquilo pelo qual a organização fora criada. O que são as escolas sem os estudantes? O que são Igrejas sem os fiéis? E o que será de uma organização de formação juvenil sem o e a jovem e suas associações de pares? As organizações de formação juvenil surgiram para a juventude e, se isso hoje se tornou secundário, esta organização perde o sentido de sua existência. Hoje, é preciso voltar os nossos sentidos para aqueles para o qual estas organizações surgiram e de onde jamais deverá se afastar.
Nossa releitura da realidade, feita a partir dos gritos da juventude, e da escuta das percepções dos atores envolvidos direta e indiretamente na vida das organizações eclesiais ou não, apontarão os Novos Rumos para as organizações juvenis na Vida Contemporânea.


Nota: É envolvido pelo desejo ardente de continuidade destes espaços que esta costura se materializou e espero que possa servir de provocação de novas reflexões para estas organizações ao momento em que pararem para rever e escrever mais uma página de sua história, carregado da história de tantos e tantas protagonistas que iniciaram estes projetos tão belos, que sofreram, resistiram e lutaram para construir uma proposta à favor da vida da juventude.



[1] Podemos considerar como atividade fora de órbita toda ação desenvolvida sem considerar o resgate ou promoção humana, visando apenas a visibilidade da instituição ou o seu bem estar. Por exemplo, os grandes eventos de massa que bastam em si mesmo, ou mesmo a realização de atividades superficais e descompromissada com vida de seus interlocutores, como o oferecimento de ações apenas para atender as exigências das agências internacionais de financiamento. Algo mais radical ou extremo é quando as instituições sociais influenciados pela lógica mercadológica oferecem atividades como mera mercadoria de consumo, perdendo com isso o caráter de prática libertadora de suas ações.
[2] DUBET, François. El declive de la instituición. Barcelona: Gedisa Editorial, 2006.
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